terça-feira, 31 de agosto de 2010

Drummond do mundo

Você encaixado no mundo seria um desgaste
Veja o mundo ao redor, veja o contraste
Entre a sua pele macia e a dureza das ruas
Entre o céu cinzento e as pupilas suas
Tão dilatadas nesse mundo escuro
Nesse riso escuro a rir do seu instinto puro.

Não se mescle com o mundo
Não permita que ele deixe

Seu olhar cada vez mais fundo
Nem sua pele descascada do descaso
Não deixe que o seu destino morra por acaso

O mundo quer diluir no esgoto as suas lágrimas cristalinas
Quer ver seus encontros se perderem pelas esquinas
O mundo inveja da sua bondade a face corada
Inveja o rodopio colorido das suas manhãs, tardes, noites, madrugadas
Misturadas num suspiro de cores roxas, rosas, amarelas, azuladas
Mas o mundo não tem nada disso, o mundo não tem nada
O mundo é cinza de manhã de noite cinza de tarde cinza madrugada desbotada
Não sabe abrir um sorriso do jeito que você abre
Aposto que nem rodopiar sabe...

O mundo só quer engolir mais um, sem fome, sem vontade, sem compaixão
Engolir um por um por pura compulsão
Na massa cada dia mais cinzenta da sua opressiva razão.

Seja a flor no concreto do mundo
Seja Raimundo, seja a solução.
Seja o "meu Deus" e o "meu amor" do mundo
Seja o anti-absolutismo da depuração
Seja um pouco de amor, seja um pouco Drummond
No meio do caminho tinha um coração.


Jessica Ferreira

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O despertar da Aurora

O amor adormecido
Desperta
Ainda entra o vento
pela porta, ainda aberta.
Voltou por linhas tortas
Na hora certa.

O amor adormecido
Quase foi esquecido
Mas não se esqueceu
Guardou o mesmo lugar
No coração que já havia sido meu.

O amor adormecido
Ainda se lembra
Do cheiro que continua o mesmo
Mesmo sendo já outro perfume
Ainda se lembra do mesmo ciúme
(Mas era melhor não lembrar...)

O amor adormecido
Não perdeu o jeito de amar
E o próprio amor não se perdeu
É como andar de bicicleta
(E ele ainda não aprendeu...)

O amor adormecido
Que volta, decidido
Com uma lágrima a mais de presente da vida
O sorriso que foi sempre tão bonito
E os olhos tristes que eu não tinha percebido.

Jessica Ferreira

domingo, 15 de agosto de 2010

Vonlenska

Eu sou o cheiro da madrugada que você não entende
Eu sou o vento entre os seus dedos que a sua mão não prende
Eu sou a linguagem oculta da esperança
Que a sua razão tenta decifrar mas nunca aprende
Eu sou a verdade que dói, mas não mente
Eu sou a espera insistente
O lugar que você acha que já visitou na sua mente
A magia que você não precisa entender para amar
O incompreensível e oculto linguajar
Que se comunica pela beleza singela
Da voz misteriosa e de tão estranha, bela
Cantando o amor contra a corrente
Eu sou o que você sente
Eu sou a voz da luz que você tanto procura
E finalmente se acende.

Jessica Ferreira

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Ara Bátur

A música é boa quando ela vai expandindo
E faz o meu espírito também expandir,
Até ele não caber mais no meu corpo,
Atingir o tamanho do universo e então explodir
Explodir junto da explosão da música,
E o espírito na música se fundir
E espírito e música virarem a mesma chuva
A transbordar nos lábios de um não se conter e cantar
A transbordar nos olhos de um não se conter e chorar...
A música, mesmo triste, é um choro de felicidade
O arrepio e a lágrima descem na mesma velocidade
E quando a música acaba, fica tudo em suspense
Fica música em mim, tocando em silêncio

Jessica Ferreira


Ara Bátur - Sigur Rós

Þú reyndir allt
Já, þúsundfalt
Upplifðir nóg
Komin með nóg
En það varst þú sem allt
Lést í hjarta mér
Og það varst þú sem andann aftur
Kveiktir inní mér

Ég fór, þú fórst

Þú rótar í
Tilfinningum
Í hrærivél
Allt úti um allt
En það varst þú sem alltaf varst
Til staðar fyrir mann
Og það varst þú sem aldrei dæmdir
Sannur vinur manns

Ég fór, þú fórst
(hopelandic)

Þú siglir á fljótum
Yfir á gömlum ára
Sem skítlekur
Þú syndir að landi
Ýtir frá öldugangi
Ekkert vinnur á
Þú flýtur á sjónum
Sefur á yfirborði
Ljós í þokunni

(hopelandic)


Tradução em inglês:

Row Boat

You tried everything
Yes, a thousand times
Experienced enough
Been through enough
But you it was who let everything
Into my heart
and you it was who once again
Awoke my spirit

I parted, you parted

You stir up
Emotions
In a blender
Everything in disarray
But it was you who was always
There for me
It was you who never judged
My true friend

I parted, you parted
(hopelandic)

You sail on rivers
With an old oar
Leaking badly
You swim to shore
Pushed the waves away
But to no avail
You float on the sea
Sleep on the surface
Light through the fog

(hopelandic)

Tropikos (uma volta completa)

Entre nós dois passeia o Sol

Trópico de Câncer
Calmo, quieto, sorriso manso
Seu corpo é mais quente que o normal
Aquece o mundo com seus abraços
Amante latino tropical

Linha do Equador (cada vez mais tênue)

Trópico de Capricórnio
Falante, inquieta, risada aberta
Seu coração é mais quente que o normal
Estremece o mundo com seus suspiros
Romântica sensível sensual

Entre nós dois passeia o Sol

(...)

(A distância
Entre os trópicos
Vai-se dissipando
Com o calor
Evaporando
Até sumir
Por enquanto
São paralelos
Mas muito em breve
Vão convergir)


Jessica Ferreira

sábado, 7 de agosto de 2010

"Wait in the fire"

Eu vejo a felicidade vindo pra mim
Olha ela ali, vindo de longe
Ela quer vir para mim, ela está tentando
Já traçou seu caminho, e eu estou esperando.

Posso enxergar a luz que ela irradia
(mesmo quando a noite escurece o dia)
Mas ainda vejo só um ponto, só um pouco
Espero em breve poder deixar meus olhos
engolirem toda a luz, como "diamantes loucos".

Eu estou presa onde estou
Não posso ir ao encontro dela
Nada posso fazer por ela
Só me resta esperar que ela chegue
Só me resta torcer por ela
Todo dia sonho que ela já chegou
Em sonho posso senti-la por perto
Me orgulho por vê-la tentando, desafiando o incerto
Minha vida agora é ficar esperando...e eu espero.

Sinto que estou "esperando no fogo"
Quando sinto medo de ela nunca chegar
Sinto medo de chorar de novo...
Espero com o coração queimando
Com medo de ficar para sempre só
Esperando...
Tenho medo de ela não chegar...
Mas ela está tentando
E enquanto ela tentar
Eu vou ficar esperando.

Já tenho uma centelha da felicidade
Só por ela estar vindo
E mesmo de longe eu consigo ver
Que enquanto ela vem, ela está sorrindo...
Olha o sorriso dela pra mim, que lindo...

A espera é longa
Mas a nossa história de amor é antiga
Tenha força, felicidade, siga!
Vou te esperar até que você consiga.
Não vou desistir de você, eu te espero
Ei...felicidade...eu te quero.

Jessica Ferreira

"Threatened by shadows at night,
And exposed to the light.
Shine on you crazy diamond. (...)
Nobody knows where you are,
How near or how far.
Shine on you crazy diamond.
Pile on many more layers and
I'll be joining you there.
Shine on you crazy diamond."
(Shine on you crazy diamond - Pink Floyd)

"My fading voice sings of love
But she cries to the clicking of time
Of time...
Wait in the fire, wait in the fire
Wait in the fire, wait in the fire..."
(Grace - Jeff Buckley)


"So I'll wait for you, and I'll burn
Will I ever see your sweet return?"
(Lover, you should have come over - Jeff Buckley)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Eu no país das consciências

O vento que entra pela janela do meu quarto de madrugada é diferente do vento que entra por qualquer outro canto da casa.
Acho que é porque ele traz um cheiro que mais nada na vida me traz, cheiro de quê?
Perguntei à minha mãe por que ele era tão bom e ela me disse que era o cheiro da vida...
Não entendi nada, mas é o mesmo cheiro que eu sinto de madrugada quando imagino um campo cheio de margaridas
E vejo uma menina sentada que às vezes eu acho que sou eu, às vezes eu acho que é a minha consciência...
Eu sei que ela saberia me responder exatamente o que de especial tem o vento-do-quarto-de-madrugada que não tem o vento-do-meio-dia-do-ônibus nem outro vento do mundo.
Claro que ela sabe, afinal ela é minha consciência e enxerga as palavras que eu não enxergo para as coisas que não sei explicar. Certo?
Certo. Vou atravessar esse campo amarelo e perguntar para ela, e vou entender finalmente o vento místico da madrugada. Olha lá a minha consciência sentada bonitinha, ela parece comigo e ela está rindo...Mas o riso dela é mais bonito e o cabelo dela brilha mais com o sol...Minha consciência sou eu, só que aprimorada.
Mas assim que chego perto dela, esqueço dessa ventania toda e acho por bem perguntar sobre coisas mais concretas e urgentes: o que eu faço em relação ao problema tal da minha vida? Ai, larga essa margarida logo e me responde...o que eu faço? Pára de rir logo, menina, me ajuda, eu tô com uma questão amorosa pendente, que caminho eu tomo?
Mas a minha consciência não fala, principalmente quando ela precisa falar. E agora eu preciso da minha consciência e ela não fala. Fala, desgraçada! Fala, infeliz! Não fala.
Aposto que se eu decidisse perguntar pra ela sobre a longínqua questão etérea do vento ela me responderia, ah, responderia sim. Mas eu decidi perguntar outra coisa. Perguntei uma coisa prática demais, e poética de menos, para que uma criatura tão subjetiva pudesse responder.
A gente percebe quando a poesia acaba assim, de repente...a vida real entra no meio e desmancha o campo florido de margaridas e o vento místico da madrugada...quando a gente precisa de respostas a poesia já não serve para nada.
E eu acordo com o meu cabelo de sempre e minha risada habitual e continuo sem saber explicar o vento e sem saber o que fazer da vida...


Jessica Ferreira